
Quando se fala na era de ouro do áudio brasileiro, nomes como Gradiente, Polyvox e Cygnus aparecem rapidamente na memória dos entusiastas. Mas existe outra marca que ocupa um lugar especial nessa história: a Quasar Engenharia, Indústria e Comércio Ltda. Seus amplificadores se tornaram conhecidos pela construção robusta, painéis repletos de controles e soluções pouco convencionais. Décadas depois, modelos como QA-5500, QA-8080 e QA-7070 continuam aparecendo em restaurações, coleções e discussões entre apaixonados por áudio vintage.
O próprio acervo preservado da Quasar mostra uma linha bastante extensa. Entre os equipamentos da primeira geração aparecem amplificadores de potência como QA-2240, QA-2440 e QA-2480, além dos integrados QA-2300, QA-7070, QA-8080, QA-5500 e QA-5505. A documentação reunida pelo Audiorama também revela diferentes versões e configurações desses aparelhos. Entre tantos modelos, selecionamos cinco que ajudam a entender por que a Quasar conquistou um lugar importante na história do áudio nacional.

Se existe um aparelho capaz de representar a Quasar para uma geração inteira, provavelmente é o QA-5500. Seu enorme painel frontal, os VUs, os diversos controles e a largura de aproximadamente 48 cm deixam claro que não estamos diante de um amplificador integrado convencional. A Quasar o classificava como um Professional Stereo Mixer Amplifier, combinando amplificação, pré-amplificação e recursos de mixer em um único equipamento.
E falar simplesmente em “QA-5500” exige cuidado porque existiram diferentes versões. O material preservado registra desde uma rara primeira versão com VU redondo até variantes anunciadas como 295 watts IHF e posteriormente 400 watts IHF High Power. Na versão mais potente documentada, encontramos 78 W RMS por canal em 8 ohms e 110 W RMS por canal em 4 ohms, com THD de 0,2% e fator de amortecimento 100.
Aqui existe uma curiosidade importante para quem encontra um Quasar anunciado atualmente. 400 watts IHF não significam 400 watts RMS. IHF era outra metodologia de especificação, muito utilizada comercialmente naquele período. Comparar diretamente esses 400 W com a potência RMS de um amplificador moderno produz uma interpretação errada. No QA-5500 High Power, por exemplo, o material técnico registra 200 W IHF por canal em 4 ohms, mas 78 W RMS em 8 ohms e 110 W RMS em 4 ohms.
O QA-5500 não é apenas lembrado hoje por colecionadores. Um documento do Diário Oficial de Santa Catarina de novembro de 1973 relaciona um Quasar QA-5500 entre os equipamentos de um laboratório de som, acompanhado de mixer e equalizadores Quasar, toca-discos Dual, tape decks Teac e Akai e até microfone Shure SM58. É uma evidência interessante de que o aparelho efetivamente ocupava ambientes de áudio mais elaborados já naquele período.
Mais de cinquenta anos depois, o interesse permanece. Há registros recorrentes de manutenção e restauração do QA-5500, inclusive envolvendo problemas previsíveis em equipamentos dessa idade, como capacitores eletrolíticos e contatos de chaves. Em março de 2026, um documentário dedicado ao modelo ultrapassou 137 mil visualizações no YouTube, outro sinal de que o QA-5500 continua despertando curiosidade muito além do pequeno círculo de colecionadores. (YouTube)
Se o QA-5500 é provavelmente o modelo mais emblemático, o QA-8080 está entre os Quasar mais interessantes tecnicamente. O Audiorama registra 78 W RMS por canal em 8 ohms, 100 W RMS em 4 ohms, THD de 0,2%, fator de amortecimento 100 e resposta de frequência de 15 Hz a 45 kHz, além do sistema Matrix. (Audiorama)
Mas o detalhe que imediatamente diferencia o aparelho está no painel. O QA-8080 empregava o sistema de controle paramétrico DYAC, oferecendo possibilidades de ajuste tonal que iam além do tradicional par de controles Bass e Treble encontrado em grande parte dos amplificadores domésticos. A documentação preservada também mostra entradas para tuner, microfone, phono, dois tapes e auxiliar, além de saídas para caixas, fones, gravador e diferentes pontos de pré-amplificação.
Outro recurso curioso é o Matrix. A documentação registra 66 W RMS no Sistema A e 33 W RMS no Sistema B, ambos em 8 ohms, em uma configuração associada a quatro canais de amplificação. Isso ajuda a entender por que os Quasar daquele período não devem ser analisados somente pela potência: a marca experimentava também com distribuição e espacialização do áudio.
Fisicamente, era um equipamento relativamente compacto diante do que entregava: cerca de 36 cm de largura, 35 cm de profundidade e aproximadamente 7,8 kg segundo o acervo histórico. O consumo máximo especificado chegava a 460 VA.
O QA-7070 ocupa uma posição interessante na família. Era um amplificador integrado Classe AB de média potência e já reunia várias características que se tornariam associadas à identidade técnica da Quasar.
Sua potência documentada era de 2 x 50 W RMS em 8 ohms, acompanhada da especificação de 295 W IHF. No modo Matrix, o Sistema A entregava 2 x 50 W RMS enquanto o Sistema B trabalhava com 2 x 25 W RMS, também em 8 ohms. A resposta de frequência indicada era de 15 Hz a 50 kHz em potência máxima, com distorção harmônica inferior a 0,2%.
O painel novamente revela a filosofia da marca. Havia entradas para tuner, phono, tape, microfone e auxiliar, além de seletores para estéreo, reverso, diferentes configurações mono e sistemas de caixas A, B, A+B e Matrix. O conjunto pré/power também podia ser separado através das conexões apropriadas.
É justamente essa quantidade de possibilidades que torna aparelhos como o QA-7070 interessantes atualmente. Eles representam uma época na qual o amplificador era praticamente o centro operacional de todo o sistema de áudio, recebendo toca-discos, tape decks, sintonizadores, microfones e diferentes conjuntos de caixas.

O QA-2300 merece entrar nessa seleção porque ajuda a compreender a evolução da arquitetura utilizada pela Quasar. Também existiram pelo menos duas versões documentadas, o que exige atenção quando especificações de aparelhos diferentes aparecem misturadas em anúncios ou discussões na internet.
A primeira versão é registrada com 50 W RMS por canal em 8 ohms e 75 W RMS em 4 ohms. Já a segunda aparece com 55 W RMS em 8 ohms e 72 W RMS em 4 ohms, THD de 0,2%, fator de amortecimento 100 e relação sinal/ruído indicada em 90 dB para o amplificador.
A documentação histórica descreve o QA-2300 como Classe AB e registra o padrão de controle tonal DYAC, filtros, loudness e possibilidade de utilização em sistemas uni ou multiamplificados. Assim como o QA-7070, o aparelho também explorava a configuração Matrix.
É interessante notar que o modelo ainda aparece em discussões técnicas muitos anos depois. Em uma conversa preservada no fórum Cifra Club, por exemplo, usuários discutiam justamente o pré-amplificador e as potências de 50 W em 8 ohms e aproximadamente 72 W em 4 ohms. (Cifra Club) Não é uma fonte para especificação histórica definitiva, mas demonstra como esses aparelhos permaneceram circulando e sendo utilizados muito depois de sua fabricação.
O último escolhido representa outra proposta. Diferentemente dos integrados anteriores, o QA-2480 é um amplificador de potência e traz no próprio nome de catálogo uma característica importante: High Power Bridge System.
Em estéreo, os números são semelhantes aos encontrados no QA-2440: 78 W RMS por canal em 8 ohms ou 110 W RMS por canal em 4 ohms. A grande diferença está na possibilidade de operação em bridge, na qual o QA-2480 é especificado para 200 W RMS mono em 8 ohms. A resposta de frequência vai de 5 Hz a 50 kHz em potência máxima, com THD de 0,2%, IMD de 0,25% e fator de amortecimento 80.
Isso coloca o QA-2480 em um território diferente dos modelos anteriores. Em vez de concentrar seletor de fontes, phono, tonalidade e outros recursos, sua função principal estava na amplificação de potência. O acervo histórico da Quasar inclusive agrupa QA-2240, QA-2440 e QA-2480 separadamente como amplificadores puros, enquanto QA-2300, QA-7070, QA-8080, QA-5500 e QA-5505 aparecem entre os amplificadores integrados.
| Modelo | Tipo | Potência RMS em 8 Ω | Potência em 4 Ω | Destaque |
|---|---|---|---|---|
| QA-5500 High Power | Mixer/amplificador integrado | 2 x 78 W | 2 x 110 W | Mixer, VUs e até 400 W IHF anunciados |
| QA-8080 | Integrado paramétrico | 2 x 78 W | 2 x 100 W | DYAC paramétrico e Matrix |
| QA-7070 | Integrado | 2 x 50 W | 2 x 75 W* | Matrix e grande variedade de entradas |
| QA-2300 2ª versão | Integrado | 2 x 55 W | 2 x 72 W | DYAC, Matrix e pré completo |
| QA-2480 | Amplificador de potência | 2 x 78 W | 2 x 110 W | 200 W RMS mono em bridge |
* Valor registrado no material técnico consultado para o QA-7070. As especificações podem variar conforme versão e metodologia de medição.
Uma lista de cinco modelos inevitavelmente deixa equipamentos importantes de fora. O QA-1150, por exemplo, apresentava o sistema DYAC e 32 W RMS por canal em 8 ohms. O QA-2240 entregava 50 W RMS em 8 ohms; o QA-2440 elevava essa potência para 78 W RMS; e o curioso QA-4500 aparece identificado como Professional 4th and 5th Phase Acoustic Effect Amplifier. Há ainda o QA-5505 e QA-5505-X, intimamente relacionados à família do QA-5500.
Essas variações também mostram por que identificar corretamente um Quasar antigo pode ser complicado. Um mesmo número de modelo pode aparecer associado a versões diferentes, e números enormes impressos ou divulgados em publicidade nem sempre representam potência RMS.
Talvez porque eles representem algo maior que suas especificações. São testemunhos de uma fase particularmente interessante da indústria brasileira de áudio, quando fabricantes nacionais desenvolveram equipamentos grandes, complexos e visualmente marcantes para um mercado que consumia discos, fitas, rádio e sistemas de som muito diferentes dos atuais.
O QA-5500 é provavelmente o grande símbolo dessa história, mas olhar apenas para ele seria reduzir demais a Quasar. O QA-2300 mostra uma etapa importante dos integrados, o QA-7070 desenvolve a proposta Matrix, o QA-8080 leva potência e controle tonal a outro patamar e o QA-2480 mostra a vertente de amplificação de potência da empresa.
E existe uma última questão importante para quem pretende comprar um desses equipamentos hoje: estamos falando de aparelhos com várias décadas de existência. Estado dos capacitores, potenciômetros, chaves, transistores, fonte, reparos anteriores e originalidade podem ser mais importantes do que simplesmente escolher o modelo mais potente. Registros contemporâneos de manutenção do QA-5500 mostram justamente intervenções em capacitores e contatos de chaves.
Para colecionadores e apaixonados pelo áudio brasileiro, entretanto, isso faz parte da história. QA-5500, QA-8080, QA-7070, QA-2300 e QA-2480 ajudam a mostrar que a Quasar foi muito além de um único amplificador lendário.