Selenium: a marca brasileira que virou referência em alto-falantes profissionais
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Para quem começou a mexer com som profissional no Brasil nos anos 1980 e 1990, alguns nomes ficaram gravados na memória. E quando o assunto era alto-falante, Selenium era uma das marcas que todo mundo queria ter.
Quando comecei a mexer com som ainda na adolescência, montando equipamentos e conhecendo melhor aquele universo de amplificadores, caixas, drivers, cornetas e crossovers, Selenium representava um nível acima. Ter um par de Selenium de 15 ou 18 polegadas dentro das caixas era quase uma credencial.
Mas essa reputação não surgiu por acaso.
A Selenium era brasileira
A história começa em 1958, no Rio Grande do Sul. A Eletrônica Selenium foi fundada pelos irmãos Victor, Henrique e Arno Aggens e Gastão Schwingel, inicialmente em Canoas. Em 1960, a empresa lançou seu primeiro tweeter e, posteriormente, passou também a produzir alto-falantes residenciais.
Um ponto decisivo viria nos anos 1980.
Em 1980, a Selenium entrou no mercado de reposição de alto-falantes automotivos e, a partir de 1985, passou a atuar diretamente na sonorização profissional de grandes ambientes, incluindo danceterias, cinemas, shows, eventos e trios elétricos.
Foi justamente essa Selenium que muitos profissionais e entusiastas brasileiros conheceram.
Não era apenas som automotivo. A marca estava dentro de caixas de PA, retornos de palco, sistemas de casas noturnas, equipamentos de bandas, igrejas, salões e sistemas montados artesanalmente por técnicos de áudio de todo o Brasil.
Os grandes woofers Selenium
Parte dessa história passa pelos enormes alto-falantes profissionais de 15 e 18 polegadas.
Entre as famílias mais lembradas estão PW, WPU e, posteriormente, SW.
Selenium 15PW3

O 15PW3 é um ótimo exemplo daquele conceito clássico de woofer profissional Selenium.
Era um falante de 15 polegadas, 8 ohms, com 250 W RMS e 500 W de programa musical, sensibilidade próxima de 98 dB e resposta especificada entre 40 Hz e 4 kHz. A própria Selenium indicava o modelo para boates, clubes, salões, auditórios, conjuntos musicais e caixas monitoras.
Hoje 250 watts podem parecer modestos diante dos números estampados em muitos equipamentos modernos.
Naquele contexto, porém, potência não contava toda a história.
Eficiência, projeto da caixa, sensibilidade, amplificação e resistência eram fundamentais. E um bom sistema com Selenium falava alto.
Selenium 15PW5
Acima dele existia o 15PW5, também de 15 polegadas, mas chegando aos 350 W RMS e 700 W de programa musical.
Era outro woofer voltado à reprodução de graves e médios-graves, mantendo uma característica importante dos projetos profissionais daquela geração: alta eficiência.
Para muita gente que montava PA, caixas para bandas ou sistemas de sonorização, esses códigos acabaram se tornando familiares.
Mas havia uma família ainda mais pesada.
WPU: quando a coisa ficava séria
Modelos como WPU1505 e WPU1805 aparecem entre os grandes woofers profissionais da história da Selenium.
O WPU1505 era um woofer de 15 polegadas desenvolvido especificamente para sistemas de alta potência na região dos graves. Utilizava bobina de 4 polegadas, carcaça de alumínio injetado e o sistema MCS, Multi Cooling System, criado para auxiliar na dissipação de calor.
Já o WPU1805, de 18 polegadas, chegava a 450 W RMS e 900 W de programa musical, com sensibilidade especificada em 98 dB.
E aqui encontramos uma evidência interessante do tamanho que esses equipamentos tiveram no Brasil.
Um documento técnico de 1994 mostra uma caixa profissional Selenium equipada justamente com o WPU1805, entregando 400 W segundo a norma ABNT/NBR 10303 e sensibilidade de 101 dB para o sistema.
O WPU1505 também aparece em projetos de cornetas para graves utilizadas em sistemas de grande porte. Material técnico sobre caixas acústicas cita, por exemplo, uma corneta dobrada com dois WPU1505 e relaciona esse tipo de projeto aos sistemas utilizados em trios elétricos brasileiros.
Para quem viveu o som profissional daquela época, isso ajuda a explicar por que a sigla WPU carregava tanto peso.
E vieram os gigantes de 18 polegadas
A evolução continuou.
A linha profissional da Selenium chegou a ter modelos como 18SW1P, um subwoofer de 18 polegadas capaz de suportar 800 W AES/RMS e 1.600 W de programa musical, com bobina de 4 polegadas, carcaça de alumínio e sensibilidade de 97 dB.
A própria tabela técnica da Selenium mostra como o catálogo havia se tornado extenso. Existiam simultaneamente subwoofers SW, woofers WPU e modelos PW para diferentes aplicações.
Isso revela algo importante sobre a Selenium: ela já não era simplesmente uma fabricante de falantes.
Ela havia desenvolvido uma verdadeira plataforma de componentes para áudio profissional.
Selenium era engenharia brasileira
Talvez seja justamente esse o aspecto mais interessante quando olhamos para a marca hoje.
A Selenium chegou a possuir uma fábrica de aproximadamente 40 mil metros quadrados, desenvolvendo internamente diversos componentes, incluindo cones e bobinas, além de possuir laboratórios e equipamentos para testes eletroacústicos.
A empresa também desenvolveu tecnologias próprias. Um exemplo foi o QCF, Quartz Composite Fiber, utilizado em modelos posteriores como WPU1507 e WPU1807 para aumentar a resistência do cone e da calota à umidade e à radiação ultravioleta.
A marca brasileira começou a ganhar espaço também fora do país.
Antes de ser adquirida pela Harman, a Selenium já exportava seus produtos para dezenas de países e possuía uma operação internacional relevante.
E isso chamou a atenção de uma das maiores empresas de áudio do mundo.
Quando a Harman comprou a Selenium
Em 1º de junho de 2010, a Harman adquiriu oficialmente a Eletrônica Selenium S.A.
O negócio tinha um objetivo estratégico claro: utilizar a tecnologia, a presença comercial e a estrutura da empresa brasileira para ampliar os negócios da Harman no Brasil e na América Latina. O próprio relatório corporativo da Harman daquele período descrevia a Selenium como fabricante brasileira de alto-falantes, line arrays, sistemas, amplificadores, drivers e outros componentes de áudio.
Segundo informações posteriores da própria operação brasileira, a Selenium já exportava para mais de 70 países quando foi adquirida. A transição de marca aconteceu gradualmente, passando por produtos identificados como Selenium by JBL, até a predominância definitiva da JBL.
De certa maneira, a história brasileira da JBL que conhecemos hoje passa diretamente pela Selenium.
Antes da JBL dominar o Brasil, existia Selenium
Hoje é fácil associar JBL às caixas Bluetooth espalhadas por casas, festas, praias e piscinas.
Mas existe uma geração que conheceu essa história por outro caminho.
Muito antes de uma JBL Boombox se tornar objeto de desejo, existiam caixas enormes de madeira, módulos de potência, crossovers, cornetas e aqueles gigantescos alto-falantes Selenium.
Para quem montava som naquela época, abrir uma caixa e encontrar aquele nome estampado no falante significava alguma coisa.
Selenium era equipamento profissional. Era potência. Era confiança. E, principalmente, era tecnologia brasileira.
Talvez por isso modelos como 15PW3, 15PW5, WPU1505, WPU1805 e os grandes subwoofers de 18 polegadas ainda despertem tanta memória em quem viveu aquela fase do áudio nacional.
A Selenium praticamente desapareceu como marca independente.
Mas uma parte importante do DNA que ajudou a JBL a crescer no Brasil veio justamente daquela fábrica gaúcha que, décadas antes, já fazia alguns dos alto-falantes mais desejados por quem gostava de som.