Philips Moving Sound: o aparelho de som que ajudou a apresentar a dance music dos anos 90 ao Brasil
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Um aparelho de som colorido, uma campanha visual completamente diferente do que se via na publicidade de eletrônicos e uma batida que começava com um dos grooves mais reconhecíveis da virada dos anos 80 para os 90. Para muita gente no Brasil, a combinação entre Philips Moving Sound e “Pump Up the Jam”, do Technotronic, foi mais do que um comercial de televisão. Foi uma porta de entrada para uma nova fase da música eletrônica.
O filme da Philips do Brasil que ficou marcado na memória foi criado pela agência Standard e veiculado em 1991, utilizando “Pump Up the Jam” como tema. O registro preservado pelo Grandes Nomes da Propaganda confirma tanto a agência quanto a associação entre a Moving Sound e o Technotronic.
E essa escolha musical acabou tendo consequências muito maiores do que simplesmente ajudar a vender aparelhos de som.
Moving Sound: quando o aparelho de som também precisava ter personalidade
A Moving Sound já existia internacionalmente antes da campanha brasileira. Registros históricos mostram produtos Philips com essa identidade durante os anos 1980, incluindo rádios, toca-fitas portáteis e boomboxes voltados principalmente ao mercado jovem. Uma publicação sobre história do design registra produtos Philips Moving Sound por volta de 1990, enquanto documentação acadêmica sobre design da Philips mostra que a família já existia anteriormente.
A ideia era simples, mas bastante moderna para a época: o aparelho de som não precisava ser apenas um equipamento eletrônico. Ele poderia fazer parte da identidade de quem o carregava.
Isso explica boa parte do design da linha.
Enquanto muitos equipamentos de áudio doméstico ainda seguiam a linguagem tradicional do preto, prata, linhas retas e aparência técnica, a Moving Sound explorava formas arredondadas, grafismos, combinações de cores fortes e elementos visuais próximos da cultura jovem do final dos anos 80 e início dos 90.
Era quase uma mistura de eletrônico, moda e cultura pop.
As peças publicitárias internacionais mostram inclusive versões amarelas bastante chamativas. Décadas depois, a própria Philips reconheceria oficialmente essa característica ao anunciar o retorno da Moving Sound, descrevendo a coleção original como uma das linhas mais icônicas da marca nos anos 80, marcada justamente por música, estilo, diversão e cor.
A estética que muitos brasileiros lembram como colorida, geométrica e quase tribal fazia muito sentido naquele contexto. Era o início dos anos 90: cores neon, formas abstratas, Memphis Design, streetwear, dança, hip-hop e grafismos estavam invadindo capas de discos, videoclipes, roupas e publicidade.
A Moving Sound parecia pertencer exatamente àquele mundo.
Philips Moving Sound AW7190: um dos protagonistas brasileiros
Entre os equipamentos associados à campanha brasileira está o Philips Moving Sound AW7190, hoje um aparelho bastante procurado por colecionadores.
O AW7190 era um rádio-gravador estéreo portátil com toca-fitas e rádio FM, trazendo também recursos como Dynamic Bass Boost (DBB). Existem exemplares restaurados no Brasil e registros do modelo associados diretamente à campanha com “Pump Up the Jam”.
Seu desenho explica parte do impacto.
Em vez daquela caixa preta retangular tradicional, o AW7190 tinha um corpo muito mais orgânico, grandes áreas circulares nos alto-falantes, comandos integrados ao desenho e detalhes coloridos que praticamente gritavam anos 90.
Era um produto feito para aparecer.
E existe uma confirmação histórica curiososa sobre sua importância: quando a Philips decidiu ressuscitar oficialmente a Moving Sound em 2026, um dos novos produtos foi desenvolvido justamente como homenagem ao AW7190. A nova geração recupera a filosofia de aparelhos portáteis coloridos e assume abertamente a inspiração na linha original.
Mais de três décadas depois, aquele design continua sendo parte do patrimônio visual da Philips.
E então entrou “Pump Up the Jam”
A grande sacada da campanha brasileira foi juntar aquele equipamento visualmente diferente com uma música igualmente diferente.
“Pump Up the Jam” havia sido lançada pelo Technotronic em 1989. O projeto nasceu na Bélgica, liderado pelo produtor Jo Bogaert, e misturava house music, elementos de hip-hop e rap em uma fórmula que ajudaria a popularizar internacionalmente o chamado hip house. O single chegou ao segundo lugar tanto no Reino Unido quanto na Billboard Hot 100 dos Estados Unidos.
Portanto, embora para muitos brasileiros aquele som pudesse parecer uma nova vertente “americana” da música eletrônica, o Technotronic era na realidade europeu. O que havia ali era uma combinação extremamente interessante: produção eletrônica europeia absorvendo elementos da house e do hip-hop que estavam explodindo principalmente nos Estados Unidos.
E isso soava muito diferente do synthpop, euro disco e Italo disco que haviam dominado boa parte da década anterior.
A própria imprensa brasileira reconhece o papel da Philips nessa história. O UOL registra que “Pump Up the Jam” foi usada no comercial da marca e ajudou a alavancar o nome do Technotronic no Brasil. A publicação também registra a música entre as mais ouvidas do país naquele período.
Ou seja: a Philips estava vendendo aparelhos de som, mas acabou ajudando a vender um novo som para uma geração inteira.
Para mim, foi um divisor de águas
Aqui entra uma memória pessoal.
Até aquele momento, minha referência de música eletrônica estava muito ligada ao que vinha dos anos 80: Modern Talking, Boney M., Francesco Napoli e toda aquela sonoridade europeia que circulava pelas rádios, festas e fitas cassete.
Quando apareceu aquela propaganda da Philips com “Pump Up the Jam”, alguma coisa mudou.
Eu não sabia explicar tecnicamente o que estava ouvindo. Não sabia que existia house, hip house ou todas as ramificações que depois eu conheceria como DJ e produtor. Só percebia que aquilo tinha outra batida, outro grave, outra atitude.
Parecia mais urbano. Mais pesado. Mais moderno.
O curioso é que anos depois você entende que aquela sensação fazia sentido. Technotronic estava justamente naquele encontro entre a house music, a música eletrônica europeia e elementos do hip-hop americano.
Para mim, a propaganda do Moving Sound foi um daqueles pequenos acontecimentos que mudam uma referência musical. Depois dela, comecei a perceber que existia outro universo além da música eletrônica que eu conhecia até então.
E logo veio uma palavra para colocar tudo dentro do mesmo pacote.
Poperô.
Antes de EDM, techno ou house, no Brasil era tudo “poperô”
Quem viveu os anos 90 no Brasil sabe exatamente do que estamos falando.
Snap!, Black Box, Technotronic, Double You, Culture Beat, Ice MC, Corona e dezenas de outros artistas poderiam ter diferenças enormes entre si. Para grande parte do público brasileiro, entretanto, aquilo acabou virando simplesmente poperô.
Existem diferentes explicações para a origem exata do termo, mas uma das mais difundidas relaciona a expressão à maneira como brasileiros reproduziam foneticamente trechos de “Pump Up the Jam”, especialmente o recorrente “pump it up”. Com o tempo, “poperô” passou a funcionar como um apelido brasileiro para a dance music comercial que dominava rádios e danceterias.
E havia também certo preconceito.
Para parte da turma do rock, aquilo era música descartável de pista. Sintetizador, bateria eletrônica, sampler, rapper, vocal feminino e gente dançando com roupas coloridas não carregavam o mesmo prestígio atribuído às bandas, guitarras e baterias acústicas.
A zoação fazia parte.
Mas olhando retrospectivamente, muita coisa que naquele momento era tratada simplesmente como “poperô” fazia parte de uma transformação enorme na produção musical mundial.
Sampler, sequenciadores, drum machines, sintetizadores e produção baseada em estúdio deixariam de ser elementos periféricos para se tornarem algumas das principais ferramentas da música popular das décadas seguintes.
Muito mais que um comercial de aparelho de som
Talvez seja por isso que a campanha Moving Sound permaneça tão viva na memória de quem viveu aquele período.
A Philips acertou uma combinação difícil de reproduzir: produto, design, música e momento cultural estavam falando exatamente a mesma língua.
O aparelho era diferente.
A identidade visual era diferente.
A propaganda era diferente.
E a música definitivamente parecia diferente.
Não era apenas um comercial mostrando potência, número de alto-falantes ou especificações técnicas. A Philips estava vendendo a ideia de que aquele aparelho pertencia a uma nova geração.
A estratégia parece ter funcionado. Em 1994, poucos anos depois daquela campanha, a Folha de S.Paulo registrava a Philips pela primeira vez como líder da categoria aparelhos de som na pesquisa Top of Mind. Naquele momento, a empresa dizia possuir entre 17% e 18% do mercado brasileiro de sistemas integrados e portáteis com CD. A companhia também afirmava que vinha aumentando sua atenção à divisão de áudio desde 1989.
Não é possível atribuir esse resultado exclusivamente à Moving Sound, mas ele ajuda a dimensionar a força que a Philips conquistou no áudio brasileiro naquele período.
A Moving Sound voltou
Existe ainda um epílogo perfeito para essa história.
Em 2025, durante as comemorações de seu centenário no áudio, a Philips anunciou oficialmente que Moving Sound voltaria ao mercado em 2026.
Segundo a própria empresa, a nova coleção foi criada como uma interpretação contemporânea da clássica linha dos anos 80. Voltaram as cores fortes, a portabilidade e até nomes históricos como The Tube e The Roller, agora aplicados a caixas Bluetooth e fones de ouvido modernos.
Não é simplesmente nostalgia.
Quando uma fabricante recupera uma identidade mais de 30 anos depois, significa que alguma coisa daquele projeto conseguiu atravessar gerações.
No Brasil, a lembrança ganha uma camada adicional.
Para muita gente, Moving Sound não lembra apenas um aparelho Philips.
Lembra televisão de tubo, fita cassete, rádio FM, danceteria, roupas coloridas, os primeiros grandes hits eletrônicos dos anos 90 e uma época em que praticamente qualquer música eletrônica dançante podia receber o mesmo nome: poperô.
No meu caso, lembra também o momento em que percebi que existia outro mundo dentro da música eletrônica.
E tudo começou com um comercial de aparelho de som.
Pump up the jam. Pump it up.
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Fontes e referências
- Comercial Philips Moving Sound de 1991, Grandes Nomes da Propaganda
- UOL: “Pump Up the Jam”, Technotronic e a campanha da Philips no Brasil
- Folha de S.Paulo: Philips conquista espaço no mercado brasileiro de áudio
- Philips Moving Sound AW7190, restauração e história do modelo
- Philips Audio: anúncio oficial do retorno da Moving Sound
- Radio Art: registro histórico dos produtos Philips Moving Sound
- Alataj: Technotronic e a origem do termo “poperô” no Brasil